Por Edemar Cid Ferreira

Entrei na Fundação Bienal de São Paulo como conselheiro e em 1993 assumi sua presidência por duas gestões. Posteriormente, como presidente da Associação Brasil +500 e da Brasil Connects, procurei dedicar minha atenção à expansão das mostras e exposições de arte no Brasil e no exterior.

Quando iniciei o trabalho na presidência da Fundação Bienal, ela passava por um período de grandes turbulências administrativas e financeiras. Percebi na época que essa importante Fundação não estava mais representando a excelência que revestia seu passado quando da administração de seu fundador Ciccillo Matarazzo, e alguns outros importantes nomes da disseminação da arte no país.

Ciccillo Matarazzo, talvez o maior mecenas que o Brasil conheceu, foi o responsável por algumas das mais brilhantes exposições do século XX. Ele trouxe obras e artistas de primeiríssima grandeza ao país nos idos dos anos 1950 e 1960, como uma exposição de Picasso em que expôs Guernica, a obra-prima do pintor. Ciccillo também criou pontes entre a arte do mundo e o Brasil, batalhou e construiu com o Governo da época o pavilhão do Brasil nos jardins de Veneza. Não fosse a influência internacional dele o Brasil não seria um dos poucos países do mundo a manter uma sede voltada à arte na belíssima cidade de Veneza.

Há outras edições da Bienal que também merecem ser citadas, assim como seus presidentes, mas gostaria de me ater ao tema da democratização das artes no Brasil.

A Bienal nos anos 1980 já não tinha um grande público. Da mesma maneira viviam subutilizados e pouco freqüentados os espaços dos diversos museus e suas exposições, bem como as poucas galerias de arte existentes, que sempre privilegiavam um grupo de intelectuais, artistas, colecionadores e a elite da sociedade paulista.

O objetivo da Bienal foi então, sob a minha gestão, buscar trazer um maior número possível de visitantes e educar o olhar dos estudantes, formar a nova geração que viriam a ser os importantes consumidores e disseminadores de arte. A minha idéia foi desde cedo lutar contra a arte institucionalizada e possibilitar o acesso para que a arte não seja um privilégio apenas dos mais favorecidos. A arte não pode ser verdadeiramente democratizada se o acesso a ela não for livre e é por isso que decidi por digitalizar mais 17.500 páginas dos catálogos das edições da Bienal e mostras que organizei enquanto exerci o cargo de presidente das instituições. Acredito que o acesso à cultura contribui para transformação da realidade do nosso povo.

Para levar a arte às comunidades remotas é preciso contar com a ajuda das pessoas ligadas mais diretamente ao mundo das produções artísticas. Elas precisam perder a visão conservadora e encarar que a arte deve poder ser discutida e tratada por todas as parcelas da sociedade. Por isso as várias linguagens devem dialogar e os elementos para a compreensão dessa produção devem ser disponibilizados.

O Brasil precisa conhecer a produção artística em nível mundial, mas para se trazer as pessoas para mais perto do universo das artes é preciso dar-lhes ferramentas para a compreensão dessa produção, que na maioria das vezes não tem relação direta com a cultura brasileira. A idéia de democratização da arte parte do princípio de não só se fornecer acesso às obras, primeiro passo fundamental, mas também possibilitar a compreensão do que se vê. Fazer com que um maior número de pessoas possa atribuir sentido à obra. Se trabalharmos nesse sentido, contribuiremos com a educação, promoveremos a cidadania e combateremos a exclusão social.

O mundo hoje chega à conclusão de que os meios de comunicação se complementam, isto é, o surgimento de um não anula a existência de outro, e isso tornou possível o fenômeno do aumento significativo da venda de livros de papel pela Internet, apesar da disponibilidade de conteúdos online como ebooks etc. Por isso acredito contribuir com a democratização da arte por meio da acessibilidade aos catálogos das exposições que organizei. É uma maneira de fazer despertar a curiosidade nos indivíduo para que eles queiram ter acesso direto a essas obras de arte catalogadas.

Vivemos um período em que grupos de indivíduos compõem e editam produções coletivas. Tem-se hoje a iniciativa Creative Commons, alternativa para a regulamentação de divulgação de conteúdo online, em que o artista cede o direito de divulgação mas detém o direito da comercialização. É uma iniciativa pioneira e paliativa para o problema de direitos autorais em tempos de era digital. Tem dado certo e funcionado no mundo todo.

Paralelamente às iniciativas privadas de democratização, é preciso haver políticas públicas do Ministério da Cultura que sejam realmente públicas e voltadas para o conhecimento da população, não para o financiamento de ações empresariais. O interesse deve ser genuinamente público e as verbas administradas com essa finalidade. Política de distribuição de obras – livros – editados e pelo setor público que cheguem ao destino sem lucro da iniciativa privada no processo.

Há ainda reflexões possíveis sobre os meios digitais serem mal utilizados para a disseminação de conteúdos artísticos, principalmente no que se refere à produção de arte digital. Existe ainda um conservadorismo em se pensar o uso da técnica dos computadores para produzir efeitos, não necessariamente arte. Ou então essas máquinas se tornam extensões das capacidades humanas, seus braços virtuais. O artista precisa dominar as técnicas digitais de artes plásticas. Nesse momento a digitalização foi um primeiro passo que possibilitou a produção de um novo tipo de arte.

No que tange a reprodução digital de obras reais, não existe na minha concepção a banalização, mas sim um efeito contrário de valorização e disseminação. Os próprios museus entendem isso quando criam galerias virtuais, que instigam a visita física e possibilitam o acesso aos clássicos da pintura a quem talvez não possa chegar a vê-los pessoalmente.

É claro que os críticos de arte continuam determinando os critérios de qualidade, mas hoje, com a digitalização e produção de obras digitais, quem seleciona o belo e aprazível é o internauta, o indivíduo que navega na web e seus gostos.

Walter Benjamin, pensador da escola de Frankfurt, já discutia a questão da produção para as massas no século passado. O acesso às produções num país como o Brasil fica restrito aos grandes centros, muitas vezes apenas ao eixo Rio-São Paulo. Precisamos trabalhar na contramão dessa corrente. Por isso viajamos com a exposição Mostra do Redescobrimento – Brasil 500 anos por diversas regiões do país, para aproximar a arte e a celebração da nossa história e tradição artística por pontos distantes.

O que o povo brasileiro tem acesso em termos de arte vem por meio da mídia. Precisamos aprender a usar as diferentes linguagens para trazer a essência da arte mais próxima à realidade do cotidiano do brasileiro, principalmente com a Internet e suas vastas possibilidades.

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Diretor de Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford anuncia sua aposentadoria, a substituição do Centro pelo Programa Brasil, agora ligado ao Centro Latino-Americano da instituição superior e agradece a contribuição de Edemar Cid Ferreira nos últimos dez anos.